“Gostaria de expressar minha gratidão a todos os patriotas amantes da paz e da liberdade e pan-africanistas que se reuniram ao redor do mundo para apoiar nosso compromisso e nossa visão de um novo Burkina Faso e uma nova África, livre do imperialismo e do neocolonialismo.”
Ibrahim Traoré
Golpes de Estado significam longas e traumáticas transições, sem data para terminar. Quando um líder golpista toma a iniciativa para dizer que a transição chegou ao fim? A normalidade democrática será um dia restituída e haverá eleições? Traoré justificou seu golpe de Estado de 2022 contra o então presidente interino, Tenente-Coronel Paul-Henri Sandaogo Damiba, acusando-o de abandonar a missão de restaurar a segurança e a integridade territorial do país. Burkina Faso, que era o antigo Alto Volta, tem seu novo nome oriundo das línguas nacionais mooré e dioula e quer dizer: “terra de homens honestos.” Após tomar o poder, Traoré prometeu priorizar o combate ao terrorismo e trazer de volta a esperança de uma vida melhor para seu povo. Desde o início do seu governo, vem gravitando em direção a nações como Rússia, China e Turquia, alternativas às potências ocidentais com tradição colonial. Considera-se um sucessor de Thomas Sankara, o presidente que também havia chegado ao poder por meio de um golpe militar, no dia 4 de agosto de 1983. Sankara, jovem, eloquente, carismático e muito querido pela juventude de seu país, defendia o renascimento, pela revolução, da nação africana e antevia para ela um futuro promissor, qualidades e visão também compartilhadas por Ibrahim Traoré. Atributos e metas do então presidente Sankara seriam um prato cheio para desagradar seus ex-colonizadores. Com seu antecessor, compartilha muitas características e sonhos. Dele vem a mesma inspiração em moldar uma África independente e solidária com a ajuda de seu povo. Considerado um farol de esperança para grande parte do continente, Ibrahim Traoré se coloca na mesma tradição de Thomas Sankara, o que lhe põe na mira dos “canhões” franceses e de outros regimes imperialistas, que preferem líderes submissos e corruptíveis, sem desejos independentistas e que sigam à risca a cartilha dos neocolonizadores.
O declínio da influência francesa na região do Sahel e na África Ocidental veio, segundo Traoré, em consequência das próprias ações paternalistas e negativistas dos europeus. Para eles, o africano é incapaz de se desenvolver, inventar, inovar, tomar iniciativa ou se autogerir. Traoré venceu uma batalha para lutar pela emancipação de sua terra e provar que tudo isso é possível, ao contrário do que pensam os governantes da França e de outros países ocidentais: “essa visão do povo africano como subumano precisa ser detida, modificada; pois enquanto tratarem os africanos dessa forma, terão a recusa para se tornarem parceiros de negócios e isso apenas aumentará o distanciamento entre os povos.” Como já afirmava o filósofo martinicano Frantz Fanon, a violência colonial não tem somente o objetivo de garantir o respeito dos homens africanos subjugados; procura desumaniza-los: “Nada deve ser poupado para liquidar as suas tradições, para substituir a língua deles pela nossa, para destruir a sua cultura sem lhes dar a nossa; é preciso embrutecê-los pela fadiga. Desnutridos, enfermos, se ainda resistem, o medo concluirá o trabalho: assestam-se os fuzis sobre o camponês; vêm civis que se instalam na terra e o obrigam a cultivá-la para eles. Se resiste, os soldados atiram, é um homem morto; se cede, degrada-se, não é mais um homem; a vergonha e o temor vão fender-lhe o caráter, desintegrar-lhe a personalidade.” (1)
Da forma em que eram definidas as relações entre europeus e africanos nunca seria possível construir uma parceria com a qual se pudesse colher benefícios mútuos, afirma o novo líder do Sahel. Para justificar sua ingerência no país, o presidente francês prefere acusar Burkina Faso de se submeter ao poderio de “estrangeiros”, especialmente do presidente russo, Vladimir Putin. Desvalorizar a prática de multilateralismo pelos países africanos e assim continuar com seu domínio neocolonial é o que está por trás do discurso falacioso de Macron. A disseminação de fake news para convencer a população local desses argumentos já não vinga no país; as pessoas estão acordando e tomando consciência de que essa é mais uma estratégia neocolonizadora para, segundo Traoré, perpetuar o controle econômico e cultural da nação. Há um temor nesses governantes ocidentais com sede de domínio na África de que os novos líderes africanos, os legítimos representantes dos desejos de toda uma região, consigam viver com independência e soberania, livrando-se das correntes do colonialismo. O que fazer em face do atual modelo de governo comandado por Traoré, que chegou ao poder por meio de um golpe e, ao mesmo tempo, apresenta-se como um líder capaz de salvar Burkina Faso das garras do neocolonialismo? O que de fato se passa em Burkina Faso? Trata-se apenas de mais uma ditadura a ser combatida? Há divergências acerca dos resultados da prometida reconstrução do país. Ele fala sobre progresso e autonomia, mas há sinais de que Burkina Faso se transforma em um estado policial, sem conseguir por fim a uma crise de segurança, com avanço visível da insurgência jihadista e a emergência de uma nova crise humanitária. Ibrahim Traoré, que estudou geologia na Universidade de Uagadugu, capital do país, entrou no exército e lutou contra esses grupos de insurgentes jihadistas no norte de Burkina, afirma que seu objetivo é consolidar a autodeterminação do seu país com a participação ativa de seu povo. Na busca desse ousado objetivo vem empreendendo múltiplas e desafiadoras tarefas: inicialmente expulsar as tropas francesas de Burkina Faso para, a seguir nacionalizar suas minas, criar bancos públicos, e fazer acordos com países fora do eixo neocolonizador. Isso permitirá a desvinculação e a independência monetária francesa, além do fortalecimento da industrialização e do uso majoritário da produção alimentar nacional para atender às necessidades internas em detrimento da sua exportação. Já no plano cultural, um passo importante foi dado com a revogação da língua dos colonizadores, o francês, enquanto língua oficial. O governo burquinense adotou um projeto de lei que revisa a Constituição e declara línguas nacionais como as línguas oficiais da nação em substituição ao francês, que ficou relegado à categoria de “língua de trabalho”. O Primeiro-Ministro Apollinaire Joachimson Kyelem, justificou a necessidade da redação de uma nova Constituição por uma questão de soberania política, econômica e cultural: “ninguém pode verdadeiramente prosperar a partir dos conceitos dos outros”, declarou o Primeiro-Ministro, aludindo a textos que foram inspirados na Constituição francesa.
Fortaleza, 22 de agosto de 2025.
Antonio C. R. Tupinambá — Professor.
E-mail: c_tupinamba@hotmail.com


